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No contexto atual, por razões diversas, muito se tem fala de educação, das escolas, da função e qualidade dos professor, dos alunos, do papel dos encarregados de educação, sempre numa ótica do "deita abaixo" por parte daqueles que não têm um papel ativo, com base em definições e teorias estranhas, parecendo haver o propósito de desvalorizar o papel dos professores, de lhes aumentar o rol de responsabilidades, numa tentativa de os responsabilizar pela incompetência de outros.

 

A educação resulta da necessidade da sociedade de preparar os seus cidadãos. É um processo dinâmico, uma ação sobre as pessoas, que visa transformar cada sujeito, capacitando-o para interagir com o seu meio e a integração social. Tem por objetivo a sua preparação para a vida, para desenvolver-se, integrar-se e contribuir para o desenvolvimento da sociedade de que faz parte, significando portanto muito mais do que o acumular de habilidades e capacidades intelectuais, de conhecimentos científicos, técnicos e de cultura geral, ou a aquisição de capacidades manuais mas, sobretudo, o torná-lo capaz de adotar uma atitude correta diante da vida, com as melhores convicções humanas, com altos valores éticos, morais e as melhores intenções.

 

Com a educação pretende-se o desenvolvimento que capacite os sujeitos (alunos) para uma integração social sem medos caraterizada pela diversidade, pela participação consciente e pelo sentido de pertença, ao invés da homogeneização em referência a uma dada modelo comportamental, do controle de uns sobre os outros e da alienação.

 

A educação inicia-se com a FAMÍLIA - socialização primária - e dela espera-se que os alunos aprendam aptidões tão fundamentais como falar, lavar-se, vestir-se, a conviver com pessoas de diferen­tes idades, a partilhar alimentos e outros dons com quem a rodeia, a participar em jogos coletivos respeitando as regras, a distinguir a nível primário o que está bem do que está mal segundo os valores da comunidade a que pertence … É claro que, para que a educação comece na família, tem que haver família e não pode haver défices parentais.

 

Com a EDUCAÇÃO ESCOLAR - socialização secundária – inicia-se um processo de instrução sistemático, organizado, não espontâneo, fundamentado numa conceção pedagógica geral, sobre uma base didática e desenvolvida por pessoas especializadas, pelos professores.

 

Ao admitir-se o caráter holístico da educação, como um todo resultante das inter-relações entre as várias áreas de formação e de desenvolvimento, no contexto da educação escolar, as funções do professor de ensinar e de educar surgem interligadas, indissociáveis, sendo portanto mais adequado definir o professor como o sujeito que desenvolve um processo de ensino-educação, que integra o processo de ensino-aprendizagem, visando o desenvolvimento do pensamento, bem como o de educar, mais relacionado com o desenvolvimento de sentimentos, funções essas exercidas coletivamente em obediência a uma articulação horizontal entre as várias disciplinas, e vertical, entre os diferentes níveis de escolaridade.,

 

Ensinar não é o mesmo que educar. Embora não exista uma boa educação sem instrução, as qualidades morais e éticas são potenciadas e realçadas pelas qualidades associadas ao desenvolvimento do pensamento adquirido pela instrução. No entanto, uma pessoa instruída não é necessariamente uma pessoa bem-educada.

 

Ser professor é portanto ensinar e educar, para a vida, sendo de importância crucial os seus conhecimentos pedagógicos e didáticos, o seu caráter, os seus valores morais, a sua conduta ética, a sua capacidade de liderança na sala de aula bem como o exemplo operativo que dá aos seus alunos.

 

A tarefa de ensinar e de educar, cabe ao professor e, por inerência, a definição do modelo pedagógico-didático, a planificação, o desenvolvimento e a avaliação do processo são da sua responsabilidade, tendo como finalidade a instrução dos alunos com os conhecimentos e competências que tenham utilidade prática no seu quotidiano, que satisfaçam seus interesses e aprofundem seus sentimentos, num aprofundar das relações afetivas com os conteúdos, como condição importante à motivação, à aprendizagem significativa e à aquisição de capacidades garantam uma cidadania consciente e responsável em obediência a valores superiores.

 

Nos tempos atuais, face ao vazio de ética, ao relativismo moral e aos défices de educação familiar, pede-se também ao professor e à escola que, em simultâneo, dê também continuidade à socialização primária, numa tentativa de minimizar défices, tarefa essa acrescida que muitas vezes acarreta prejuízo ao processo de ensino-aprendizagem, gerando atrasos e aumentando a carga de stress dos professores, prejuízo esse que está potenciado quando se verificam grandes atrasos na aprendizagem de conhecimentos e de competências e a não manifestação de atitudes corretas para o nível de ensino que o aluno frequenta.

 

Para além das dificuldades inerentes às funções normais de ensinar e educar, verifica-se atualmente, para os professores de alguns grupos disciplinares, um acréscimo responsabilidade, de trabalho e de stress profissional, a par de uma diminuição da satisfação, decorrentes do aumento da "pressão" por parte de número crescente de encarregados de educação, da preocupação em se obterem resultados honrosos nas avaliações internas e  externas e da desvalorização do trabalho do professor.

 

Refira-se também que, apesar de a todos os professores serem atribuídas as mesmas funções, a de ensinar e a de educar, e a mesma remuneração mensal base, a professores com igual tempo de serviço, a uns a função de ensinar exige uma maior formação didática,  científica, intelectual, específica, contínua, e trabalho acrescido traduzido na elaboração de recursos didáticos específicos, no desenvolvimento de aulas mais eficientes e eficazes, e na realização da avaliação do processo de ensino-aprendizagem, como instrumento regulador e certificador, tendo em conta a maior importância que alunos e encarregados de educação atribuem a algumas disciplinas, a imagem do professor perante os resultados das avaliações internas e externas e a pressão para que suas escolas fiquem bem posicionadas nos rankings.

 

Para finalizar, acrescento um outro aspeto que julgo deve merecer também alguma reflexão por parte dos encarregados de educação. Sendo a escola um local onde os professores potenciam o desenvolvimento dos alunos, seus filhos, estabelecendo e mediando relações humanas que promovem o desenvolvimento físico, psíquico e social dos alunos, preparando-os para uma integração social mais consciente e facilitada, seria de esperar que os professores fossem vistos como agentes educativos que, por pouco que pareçam trabalhar, só geram benefícios, ao invés de trabalhadores mecanizados sem sentimentos a quem se pode exigir mais pedagogia, esquecendo sua aptidão vocacional e seu desenvolvimento ético e moral que em muito determinam suas práticas. Refiro pedagogia e não didática. Cada professor só dá o que pode e nunca dará o que não tem. Tal como em todas as profissões, na docência também há os mais e os menos dedicados, os mais e menos capazes, os mais e os menos vocacionados, merecendo todos igual respeito pela diversidade, que é natural, principalmente determinada pela herança genética, e não pela adquirida resultante de diferentes formações académicas e vivências. A discordância ao nível pedagógico não se faz críticando publicamente, o que constitui uma falta de respeito, mas recorrendo à opção de liberdade de escolha. Também grave, é a crítica baseada em informações falsas sem haver a confirmação. Por outro lado, é frequente ouvir-se o discurso solidário para com as direções das escolhas, elogiando-as, esquecendo o papel dos professores no sucesso das mesmas, mais parecendo quererem agradar do que agradecer. Do diretor exige-se uma boa organização da Escola; dos professores, o seu bom funcionamento. Uma Escola de sucesso não é a que tem uma liderança forte mas a que possui uma boa liderança, unificadora em volta do mesmo espírito e visionária, e professores que têm um trabalho, e não um emprego ao qual se acomodaram, que exercem,  focalizando sua ação no aluno, com ética, honestidade, trabalho, empenho, entusiasmo, liberdade e coragem, num esforço de obter a realização pessoal e o reconhecimento profissional; quando funciona como um todo, maior do que a soma das partes. Em termos qualitativos, uma liderança forte pode ser forte, quando representativa e competente, ou fraca quando é demasiado normativa e autoritária.

 

O respeito pelos docentes, expresso em gestos de reconhecimento profissional e de solidariedade na defesa da melhoria das condições de trabalho e de remuneração,  são condições importantes que julgo necessárias à melhoria do nosso sistema educativo e do trabalho dos professores. Defender a Escola é estar do lado dos professores e dos alunos. Os professores não constituem um meio, um recurso, que se "usa e se descarta" mas, tal como os alunos, integram o produto inacabado, sofrendo também transformações positivas, merecendo também maior respeito e maior reconhecimento social face ao trabalho que têm ainda para realizar e aos resultados já conseguidos com os filhos dos outros.

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publicado às 21:47


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